sexta-feira, 29 de maio de 2009

O CAPITAL IRREAL

Em que medida a realidade é real? Essa pergunta do construtivismo (Paul Watzlawick) parece impor-se cada vez mais à consciência social. A dúvida quanto à realidade da existência subjetiva há muito se tornou popular na ficção cientifica, a exemplo dos romances do norte-americano Philip k. Dick e do polonês Stanislaw Lem. Será que jazemos clinicamente mortos numa câmara refrigerada e nosso cérebro é manipulado por meio de estímulos eletrônicos que nos simula a vida e a experiência? Ou será então que estamos sob o efeito de drogas que nos figuram um mundo repleto de vida, quando na verdade jazemos encolhidos num canto fétido qualquer? A inquietante sensação de que a realidade pode ser interrompida a qualquer momento, como se alguém retirasse o plugue da tomada, penetrou abertamente até mesmo na consciência cotidiana. O desenvolvimento da microeletrônica e a nova mídia fortaleceram uma tendência social que apaga as fronteiras entre a existência e a aparência, entre a realidade e a simulação. O que é significado e o que é significante? Ainda é possível traçar essa diferença? Talvez a guerra do IRAQUE como supõe alguns teóricos da mídia, tenha ocorrido apenas nas telas de televisão. A própria política transformou-se há muito num teatro da simulação. Estrelas pornôs, ídolos esportivos e atores de cinema dividem as cadeiras do congresso e do governo com criminosos renomados. Não é mais a propaganda objetiva que determina as eleições nas democracias, mas o personality show de máscaras sorridentes. A perfeita evasão da realidade concreta em busca do refúgio na “realidade virtual” parece emergir no horizonte do tecnicamente possível. De fato existem pessoas que quase desaparecem por trás de seus computadores. A mídia não cresce apenas quantitativamente, mas assume também qualitativamente o poder sobre a consciência humana. Quando menos os homens se comunicam, maior é o espaço ocupado pelas telas de televisão. Do cinema tridimensional ao preservativo de corpo inteiro representado pela mídia, as fantasias do cybersex prometem a máquina definitiva da auto-satisfação. A finintude do mundo concreto, que impõe limite aos robôs é fantasmagorias que povoam a literatura fantástica. O capital fez homem de si mesmo algo supérfluo e agora não passa de um produto simulado pela mídia. Nos anos 80, a consciência simuladora alastrou-se pelo âmbito profissional e atingiu a estrutura da sociedade do capital. Os yuppies, eles próprios um produtos da mídia, começaram a simular os critérios do capital de eficiência e sucesso em vez cumpri-los efetivamente. Quando maiores os investimentos em tecnologia avançada e quanto maior a racionalização da produção e dos serviços, tanto menor é o rendimento do sistema. Todos fingem profissionalismo, produzem porcarias e dizem de modo geral: “pedimos encarecidamente sua compreensão”. É quase chique não ser capaz de concentrar-se em mais nada: “todos são artistas” (JOSEPH BEUYS); pintores incapazes de pintar; cantores incapazes de cantar e escritores incapazes de escrever. “Todos têm seus cinco minutos de fama” (ANDY WARHOL). O respeito pela própria individualidade restringe-se ao vestuário. Jovens de ambos os sexos, imersos na simulação, consideram a si mesmos como cabides ambulantes: você é o que você veste. Não foi apenas o desenvolvimento tecnológico da nova mídia que ensejou, no final do século 20, uma lastimável cultura da “falsa autenticidade” ou da “autêntica falsidade”. Numa sociedade onde a economia é à base de tudo, a consciência simuladora também deve ter um fundamento econômico. Mas em que consiste a “economia política da simulação”? Para responder a essa pergunta, devemos saber exatamente aquilo que nas relações de produção do capital não pode mais figurar como “real” e por isso deve ser simulado. O problema parece estar na relação entre o trabalho –isto é, a atividade produtora de mercadoria- e a moeda. “Trabalho”, nesse sentido, significa o consumo de energia humana. O processo das relações de produção do capital no momento atual pode ser definido como a inesgotável transformação desse trabalho em moeda: a energia humana que se manifesta na sociedade do capital constitui a substância da moeda. Toda moeda que não espelha um trabalho precedente é moeda sem substância e por isso simulada. KARL MARX é considerado hoje em dia pelos apologistas do capital como o grande perdedor da teoria histórica. Mas, para além de antigos conflitos e interpretações, sua teoria sobre a sociedade do capital continua insuperável a qualquer outra. O terceiro volume de “O CAPITAL” é surpreendentemente atual, pois nele encontramos os fundamentos teóricos para a atual “economia política da simulação”. O conceito básico nesse contexto é o de capital fictício. MARX distingue duas formas ou dois esteios desse capital fictício: o crédito governamental e a especulação. Em ambos os casos, a transformação real do trabalho produtivo em moeda é substituída pelo crescimento simulado da base monetária. O crédito governamental é um paradoxo econômico. De fato, nas relações de produção do capital o crédito serve apenas para financiar a produção, mas para o mercado. As despesas do estado não representam, contudo, nenhuma produção, mas somente consumo social. Por isso, a única fonte das finanças governamental verdadeiramente sensata e condizente com o sistema é a taxação de lucros e salários: o estado retira o excedente monetário das receitas do mercado a fim de financiar o consumo social. Quando por sua vez, o estado financia a si próprio por meio de crédito, torna-se obrigado ao pagamento de juros. Normalmente, porém o estado não desenvolve nenhuma atividade produtiva para o mercado e, por isso, é absolutamente incapaz de obter fundos para o pagamento de juros. O paradoxo está no fato de que, sob a forma de crédito governamental, uma atividade econômica é tratada simuladamente como produção, embora seja consumo social. O Estado só consegue resolver insatisfatoriamente essa contradição lógica ao empenhar suas receitas futuras com o lançamento de impostos. Em outras palavras, a sociedade capitaliza o trabalho futuro. O consumo social do presente, imprescindível para o sistema, ocorre à custa do futuro; o Estado moderno torna-se um vampiro que suga seu próprio porvir. Por que então os Estados concordaram com esse financiamento cada vez mais insensato? A razão para tanto não está nem nas “reivindicações sociais exageradas” nem nas “falsas idéias socialistas”, como afirmam os ideólogos do neoliberalismo. Foi o próprio desenvolvimento do capital que permitiu o crescimento improdutivo, em termos do capital, do consumo estatal. Quando mais a relações do capital se se impôs historicamente e quando mais a concorrência forçou o emprego da ciência e da tecnologia, tanto maiores foram os “custos operacionais” improdutivos do capital, evidenciados na forma do consumo estatal. Entre eles, os custos com o exército ocupando um destaque. Já na PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL, a maquinaria industrializada da morte só pôde ser financiada por meio de vultosos investimentos estatais. Esse crescimento dos custos para o consumo social improdutivo prolonga-se até hoje, inclusive nas tarefas civis do Estado. Se este quisesse hoje financiar por meio de impostos todos os custos que se tornaram necessários para sua atividade, fatalmente arruinaria o capital e destruiria com isso seu próprio fundamento. Pode-se dizer, ironicamente, que os “custos operacionais” da sociedade do capital tornaram-se tão alto que ela, segundo seus próprios critérios, já não é mais rentável historicamente. Para encontrar tal situação, o capital recorrer à simulação monetária e, por meio do crescente capital fictício do crédito governamental, sangra seu imaginário futuro capitalista. Esse procedimento simulado mostrou-se viável enquanto o capital deu provas de confiança e assegurou seu crescimento com um verdadeiro consumo de energia humana, sob a forma de trabalho. Até o segundo terço do século 20, o crédito estatal cresceu em conjunto com trabalho produtivo nas indústrias, o que possibilitou ao Estado recolher mais impostos justos a custear seus créditos cada vez maiores. As novas indústrias “fordistas”, assim denominadas em homenagem ao empresário norte-americano Henry Ford, com sua produção em massa de automóveis, aparelhos domésticos, objetos eletrônicos etc., possibilitaram, somente na Inglaterra do pós-guerra, a criação de 10 milhões de empregos. Mas o encanto desses “milagres econômico” foi quebrado pelo desenvolvimento da microeletrônica no final dos anos 70. A mesma tecnologia que produziu a nova mídia substituiu em grande escala o trabalho humano pelo de robôs e pela racionalização. É claro que com isso o trabalho produtivo, no sentido do capital do termo, não desapareceu completamente, mas o crescimento posterior da moeda deixou de corresponder de modo suficiente ao crescimento do trabalho produtivo. Depois do Estado, portanto, o próprio capital ingressou no estágio da simulação. Ao lado do capital fictício do crédito governamental surgiu o capital fictício da especulação comercial. Uma vez que a expansão do trabalho produtivo deixou de ser rentável ou tornou-se muito onerosa, os lucros passaram a fluir cada vez mais para a especulação com ações, imóveis, divisas cambiais, contratos a termo etc. A essência do capital especulativo é obter um aumento fictício do valor sem respaldo em nenhum trabalho produtivo, contando apenas com a negociação de títulos de propriedade. No caso das ações, isso significa que o próprio rendimento, por meio dos dividendos, adquiriu um valor acessório; o mais importante passou a ser o aumento dos índices da Bolsa acima de qualquer crescimento dos lucros obtidos no mercado real. A década de 80 viu nascer assim um capital-cassino de dimensões globais, que dura até hoje. É claro que houve também em épocas anteriores fases dominadas pela especulação, porém estas não só terminaram regularmente com um crack financeiro após um breve período de tempo, mas também sempre foram sucedidas por um novo impulso na expansão do trabalho produtivo. Hoje em dia, entretanto, ocorre exatamente o oposto. A era do capital-cassino estende-se de modo tão pouco natural porque, graça à racionalização, o trabalho economicamente produtivo continua a derreter como neve ao sol. O novo lugar-comum definido pelo “jobless growth” significa que o crescimento da moeda tornou-se sem substância e é unicamente simulado por meio de crédito e de maneira especulativa. Não apenas o Estado, mas também o mercado acha-se agora obrigado a sangrar o seu futuro imaginário e empenhar seus fictícios lucros futuros. A economia e os empreendimentos privados têm a mesma parcela de culpa que a administração estatal. Somente nos Estados Unidos, a dívida do Estado chega a cerca de US$ 6,5 trilhões, na forma de empréstimos estatais e títulos das dívidas privadas, por sua vez, atingem US$ 10 trilhões, na forma mais lastreada no trabalho produtivo, mas em grande parte no aumento dos ativos financeiros. As grandes empresas auferem lucros monumentais não mais pelo sucesso na produção real, mas pelas manobras engenhosas de seu setor financeiro no mercado especulativo do capital fictício. O chamado “derivativo financeiro”, originalmente um instrumento de proteção contra o risco nas negociações com o exterior, sofreu paradoxalmente uma drástica transformação num mercado especulativo que hoje alcança, no âmbito global, o volume aproximado de US$ 60 trilhões. O capital simula a si próprio. O capital fictício do crédito governamental e o capital fictício da especulação comercial estão inextricavelmente entrelaçados, as dívidas de um setor são “pagas” com as dívidas do outro, e o crescimento simulado alimenta a própria simulação. O indicie Dow Jones, o termômetro da Bolsa de Nova York, que atinge atualmente 4.700 pontos, contribuiria somente com cerca de 1.000 pontos numa avaliação realista. Num balanço real, sem valores fictícios, todos os países do mundo seriam testemunha do colapso de seus empreendimentos mais vultosos. Partidos políticos, administrações comunais e instituições culturais aplicam seu dinheiro no mercado financeiro, o que os torna dependentes da criação monetária simulada. O desmoronamento desse edifício global parece inevitável. A desvalorização da moeda sem substância pode ocorrer com inflação ou a deflação; no futuro, é possível que a inflação e a deflação corram até mesmo paralelamente em diversos setores. Inúmeros indícios nos revelam a iminência do choque de uma desvalorização mundial. Vários países do Terceiro Mundo e do Leste europeu já passaram por ciclos de hiperinflação, cujas porcentagens variam entre 100 (Turquia) e a um milhão (ex-Iugoslávia). Isso jamais ocorreu em tempos de paz. No Ocidente, as falências se multiplicam nos empreendimentos industriais e imobiliários. Um número cada vez maior de bancos, caixas econômicas e companhias de seguros tropeçam no fracasso, a exemplo do Banco Baring de Londres, impelido à ruína pelas mãos de um corretor de 29 anos de idade. A crise do sistema monetário mundial também indica que a criação de moeda sem substância chegou a seu limite. Uma coisa é certa: os homens modernos de todas as classes sociais não querem admitir que, com o decorrer do tempo, uma economia totalmente monetária é inviável na prática. A despeito disso, a notável “cultura da simulação” nos permite supor que a realidade do capital tornou-se irreal. Talvez o indício mais forte do fim dessa realidade da aparência seja o fato de certos homens não se levarem mais a sério e nem saberem se realmente ainda existem.
NEY N. GONÇALVES/ 2008

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