sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O AMOR

AMOR
Na sociedade humana, a guerra interminável entre as relações individuais e econômicas, entre o amor e o metabolismo, é a fonte do eterno progresso social. A sexualidade, por ter dado origem à individualidade, também ajudou a criar a consciência. O metabolismo (ou força produtiva) muda de uma idade para outra, e esta mudança impõe uma tensão sobre as relações de produção. Mas esta luta, estendendo-se por toda a sociedade, é sentida numa forma característica no campo do sentimento do homem, em sua consciência, pois esta é basicamente afetiva. Ela é sentida como se forças externas estivessem fazendo as vidas emocionais dos homens passarem fome, ou frustrando-as, como se a vida se estivesse tornando sem encanto ou cruel, pois as relações de produção são relações sociais e nela é gerada uma ternura consciente.
O próprio amor sexual é continuamente enriquecido e modificado pelas relações econômicas, ao mesmo tempo em que estas ganham novo calor e complexidade do amor. Para cada estágio do desenvolvimento econômico há um correspondente padrão de comportamento mais rico, mais sutil e mais sensível, associado como amor sexual. O amor apaixonado pertence à cultura burguesa, o amor romântico ou cavalheiresco à feudal, e o platônico à cultura escravista grega.
Para a nossa geração, a associação das relações econômicas com o amor sexual parece arbitrária, não porque a nossa idéia de amor seja demasiada rica, mas porque a nossa noção de relações econômicas é demasiado burguesa. A civilização burguesa reduziu as relações sociais ao nexo do financeiro. Elas se tornaram vazias de afeição. Para um psicólogo, o mundo inteiro parece estar sofrendo de uma fome de amor, e esta necessidade aparece numa forma patológica e compensatória como neurose, ódio, perversão e inquietação.
Mesmo hoje em dia, naquelas relações econômicas que ainda sobrevive numa forma pré-capitalista, podemos ver a ternura como a essência da relação. O fetichismo da mercadoria, que encara a relação entre homens somente como uma relação entre coisas, ainda não se exauriu. A relação econômica entre a mãe e seu feto, entre a criança e o pai, e vice-versa, retém sua primitiva forma para mostrá-lo claramente. Podemos distinguir traços mais fracos na relação entre mestre e aluno, governante e criança, criado e patrão ou patroa, e os poucos exemplos que ainda sobrevivem de uma relação feudal entre patrão e homem.
Onde pode essa ternura ser encontrada nas relações caracteristicamente burguesa, se nossa cultura substitui por elas as relações entre capitalistas e trabalhadores; criados de hotel e hóspede; promotor da companhia e acionista; autor de um curso de correspondência e pessoa estudiosa? Esta ternura, expulsa de todas as outras relações, é hoje reunida e usada numa vaga maneira mística como a força unificadora para a única relação social de “estar no mesmo Estado”. Esta é uma relação social genuína, a de estar na estrutura da coação, explorada por uma classe dominante, mas não é uma que, em sua forma identificada, seja capaz de produzir ternura. Portanto, é necessário substituir pela ralação nua uma fictícia – “raça” fictícia, uma família maravilhosa e feliz ou um Rei ou Líder títere cuja sabedoria, habilidade, política e caráter são considerados como semidivinos, mesmo quando a sua posição é, constitucionalmente, a de um carimbo. Por este meio, garante-se uma poderosa “participation mistique”. Quanto mais violenta a exploração; quanto mais ardente o patriotismo mitológico; quanto mais cruéis e frias as relações, maior o desfile de sentimentos hipócritas. Este é característico das relações burguesas desenvolvidas. Nas relações primitivas entre um grupo, como mostram as pesquisas dos antropologistas, a produção econômica esta inextricavelmente entretecida com o afeto local. Entre tribos, entre chefes e súditos ou entre os diferentes membros de um grupo, a relação econômica figurava como um intercâmbio de presentes, como um tributo de afeição no sentido literal. É o amor que acompanha os presentes, que é o dar; é a coisa econômica vital. Muitas transações primitivas que, para os primeiros observadores burgueses, pareciam ser intercâmbio burguês, isto é, obter-se o máximo possível pelo mínimo possível, os observadores mais atentos agora descobrem ser exatamente ao contrário, cada lado procurando envergonhar o outro por uma superabundância de presentes. Descobre-se que o orgulho do melanésio esta em ter contribuído com o maior número de inhames do que qualquer outra pessoa para seu tio materno ou chefe. No potlatch, o índio norte-americano demonstra seu valor social empobrecendo-se. Esta concepção de relação econômica na forma de uma relação terna, é como um meio adequado para generosidade e altruísmo, aparece nas relações bárbaras e mesmo nas feudais. Não devemos idealizá-las, ou imaginar que a simples ternura selvagem seja idêntica à emoção mais desenvolvida, sutil e requintada que sentimos. Mas é igualmente errado, torcendo e forçando os fatos, dar uma cínica interpretação burguesa às diferentes relações econômicas primitivas da agricultura, da caça e da ocupação da terra dos povos africanos, americanos e oceânicas primitivas.
Em todas as relações burguesas distintivas, é característico que a ternura seja completamente expulsa, porque ela só pode existir entre homens, e no capitalismo todas as relações parecem ser entre um homem e uma mercadoria.
A relação entre o membro de uma guilda e seu oficial, entre o proprietário de escravo e este, entre o senhor e seu servo, entre o rei e seus súditos, era uma relação entre homem e homem, embora fosse uma relação não de cooperação, mas de domínio e submissão, de explorador e explorado, era humana. Era desagradável como uma relação entre um homem e seu cão, mas pelo menos era terna. Como pode mesmo esse tanto de considerações entrar nas relações entre grupos de acionistas e os empregados de uma companhia de responsabilidade limitada? Ou entre uma burocracia burguesa e o proletariado?
Nas relações burguesas a única relação social legal reconhecida entre adultos é o contrato, considerado ressarcível em dinheiro; pode-se mesmo fugir ao casamento através de indenização adequada em dinheiro. O homem é completamente livre exceto do pagamento de dinheiro. Este é o caráter evidente das relações burguesas. Secretamente é diferente, pois a sociedade só pode ser uma relação entre homens, não entre homem e uma coisa, nem mesmo entre homem e dinheiro. A sociedade burguesa pensa que ela é a relação sobre a qual ela gira, mas, como Marx demonstrou na sociedade burguesa ela ainda é uma relação entre homens, entre exploradores e explorados. É o veiculo de um tipo especifico de exploração. O sonho do burguês é que, substituindo por esta relação com uma coisa, as relações feudais escravistas ou primitivas entre homens, o homem se torna completamente livre. Mas isto é uma ilusão. Como o homem só se torna livre através de relações sociais, isto quer dizer que o burguês fecha os olhos aos fatos. Ele substitui as relações sociais conscientes e planejadas pelas relações sociais inconscientes e não-planejadas que, como todas as forças inconscientes, trabalham cega e desastrosamente.
Não obstante, o burguês determinou-se em acreditar que o mercado era a única relação social entre homem e homem. Isto significava que ele devia recusar-se a crer que o amor era parte integrante de uma relação social. Ele suprimiu sua ternura de sua consciência social. Em sua forma final isto se transforma na traição do homem à sua capacidade de amar, o aparecimento do amor na forma de neurose, ódio e fantasia, que os psicanalistas descobrem no homem burguês em toda a parte. Num sentido a Lei de Propriedade da Mulher Casada foi um diploma de liberdade para as mulheres. Em outro, foi apenas um diploma de repressão burguesa, um reconhecimento de que as relações econômicas entre marido e mulher não mais eram ternas, e sim apenas financeiras.
Em seus primeiros estágios, as relações burguesas, intensificando o individualismo, dão uma intensidade especial ao amor sexual. Antes de se cristalizarem como relação com dinheiro, as relações sociais burguesas apenas parecem expressar a necessidade que o homem tem de libertar-se dos laços sociais obsoletos, e esta necessidade de individualidade é, então, uma força progressista. O amor sexual agora assume como vimos claramente na arte, um valor especial como a expressão par excelence de individualidade. Vimos o aparecimento daquela realização característica da cultura burguesa, enquanto que nem os gregos nem a cultura medieval podiam conhecer amor romântico e sensual exceto como oposto exclusivos. O amor apaixonado da novos harmônicos ao sentimento e à vida consciente. Ademais, essa necessidade de individualidade também estava enriquecendo outras formas de amor, enquanto era revolucionaria e criadora. Ela deu aos homens uma nova ternura mútua, concebida com ternura pela liberdade de cada um pelo valor pessoal um do outro. Assim a cultura burguesa, em sua primavera, deu origem ao amor sexual apaixonado, e a uma ternura pela “liberdade” – o esboço individual – dos outros membros da sociedade. Ambos são enriquecimentos genuínos que a civilização não pode agora perder.
Não obstante, a contradição das relações sociais burguesas, de que a vantagem privada é o bem-estar comum, de que a liberdade é procurada individualmente e anti-socialmente, necessariamente revelou sua natureza no devido tempo. O homem não pode existir sem relações com os outros homens e a exigência burguesa de que ele deveria fazê-lo, apenas significava que essas relações eram disfarçadas como relação com mercadorias. À medida que essa relação em desenvolvimento produziu o capitalismo industrial e o Estado moderno burguês, ela sugou a ternura de todas as relações sociais. Finalmente, ela afetou até mesmo o próprio amor sexual e começou a tirar-lhe os próprios enriquecimentos do amor sexual que tirara das ternas relações sociais. O amor apaixonado burguês é, atualmente, como uma flor que esta sendo despojada das suas pétalas uma a uma. Essas pétalas são os padrões de comportamento derivados das relações sociais burguesas, que foram transferidos para o amor sexual e por ele transformado e aquecido, assim como as coloridas pétalas da flor consistem de folhas verdes transformadas. Na instituição do casamento burguês, essas relações econômicas - a família individual, a renda pessoal – foram transformadas pelo calor do amor sexual em algo nobre. É verdade que as relações sociais burguesas, mesmo quando assim transformadas, retêm algo do seu feio caráter sem ternura. Com muita freqüência, o homem encara o amor como sendo idêntico à relação burguesa de propriedade, como uma relação entre homem e uma coisa e não entre homem e homem. A esposa é sua propriedade vitalícia. Ela tem de ser bonita para agradar seus instintos aquisitivos; fiel porque a propriedade de um homem não se pode alienar dele; mas ele, o proprietário, pode ser infiel, porque pode adquirir outra propriedade sem afetar sua posse atual. Elas lhe venderam sua força de trabalho. Na civilização escravista romana, a posição legal da criança aprece como a de escravo e pai, e, além disso, um escravo incapaz de emancipação. Mas mesmo a escravatura é uma relação entre homens. Essas feias características possessivas das relações sociais burguesas sempre deram ao amor burguês uma totalidade egoísta e ciumenta, que o burguês, a despeito das pesquisas da antropologia, considera como instintivas e naturais. A propriedade privada não foi inventada pela burguesia. É uma potencialidade das relações sociais ou não poderia não ter surgido na burguesia. Mas este foi seu florescimento, sua elevação foi sua força motriz básica das relações sociais; e o seu sabor impregna toda a vida burguesa.
Com a exaustão das relações sociais burguesas, o amor apaixonado burguês também começa a fenecer ante a rajada econômica. Por um lado, o casamento tronou-se cada vez mais “dispendioso”. Deve ser adiado na vida. Esse casamento – que para a cultura burguesa e, sobretudo para a mulher, tem sido o mais valioso padrão de comportamento do amor – atualmente é apenas uma variedade tardia e especializada dele. Os filhos estão cada vez mais caros, e as ternas relações sociais a eles associados mais raramente formam parte do padrão normal do casamento. Por essas e outras causas, é que a criação elaborada e complexa, o amor apaixonado burguês, é cada vez mais despojada da sua corola, revertendo para uma forma primitiva de fugidia relação sexual. Esta, a inevitável conseqüência da exaustão das relações sociais burguesas, é denunciada como “pecado”, “leviandade dos jovens”, “derrocada da instituição do casamento”, “crescente promiscuidade”, “resultado do controle da natalidade”, e assim por diante. Mas todo esse abuso não vem ao acaso. O amor apaixonado burguês realmente preparou sua própria morte. As mesmas causas que provocaram seu florescimento no correr do tempo ocasionaram este fenecimento.
Atualmente, o amor poderia preparar uma espantosa acusação dos erros e privações que as relações sociais burguesas o fizeram sofrer. A miséria do mundo é econômica, mas isto não quer dizer que ela seja de dinheiro. Este é um erro burguês. Apenas porque as relações são econômicas, elas incluem os mais ternos e apreciados sentimentos do homem social. Para a satisfação de todas as ricas capacidades emocionais e ternuras sociais das quais as relações burguesas o privaram, o homem se volta inutilmente para a religião, ódio, patriotismo e sentimentalismo dos filmes e novelas, que pintam na imaginação os amores que ele não pode experimentar na vida. Por isso ele é neurótico, infeliz, doente, sujeito aos ódios das massas, da guerra, aos jubileus reais absurdos embora patéticos. Por isso a sua vida lhe parece vazia monótona e improfícua. O homem não lhe dá prazer, nem a mulher.
As relações sociais burguesas, transformando dessa forma todas as ternas relações entre homens em relações com mercadorias preparam seu próprio fim. Os fios que ligam o senhor feudal ao vassalo, o chefe à tribo, o patriarca ao escravo domestico, o pai ao filho, por serem ternas, são fortes. Mas os que unem o acionista ao assalariado, funcionário publico ao contribuinte e todos os homens ao mercado impessoal, por serem apenas dinheiro e despido de relações ternas, não podem subsistir. A ordem de um homem-deus ainda é um comando pessoal e afetuoso. Mas as leis da oferta e da procura (seu substituto na cultura burguesa) são despidas de poder exceto da compulsão cega. Atualmente, é como se as relações amorosas e econômicas se tivessem reunido em dois pólos opostos. Toda a ternura não-usada dos instintos do homem se reúne num pólo, e, no outro, estão às relações econômicas, reduzidas a simples direitos coercivos a mercadorias. Essa segregação polar é a fonte de uma terrível tensão e dará origem a uma grande transformação da sociedade burguesa. Elas devem, numa destruição e reconstrução revolucionarias voltar-se uma para a outra e fundir-se numa nova síntese. Isto é comunismo.
Assim, as forças que produzem o comunismo podem ser consideradas de dois ângulos. Do quantitativo, as forças produtivas, que cresceram além das relações sociais burguesas, quebraram esses grilhões. Mas a batalha é travada num problema na consciência do homem. O homem, o individuo, sente o envelhecimento dessas relações, seu abandono pela realidade, como a morte de tudo que lhe é valioso. A necessidade de trazer de volta à consciência esses valores desaparecidos surge como ódio pelo presente e amor pelo novo, o poder dinâmico da revolução. A emoção rebenta do solo na qual foi reprimida, com força de uma explosão. Toda a estrutura da sociedade é destruída. Isto é uma revolução.

Ney Gonçalves.
Para meu grande amigo, Marcelo Lopes.