Construção do mito cristão
A fé cristã primitiva no homem sofredor que se tornou deus tinha sua significação central no desejo implícito de derrubar o deus pai ou seus representantes terrestres. A figura do Jesus sofredor originou-se primordialmente na necessidade de identificação da parte das massas sofredoras e apenas secundariamente foi determinada de expiação do crime de agressão contra o pai. Os seguidores dessa fé eram homens que, devido à sua situação de vida, estavam imbuídos de ódio aos seus governantes e de esperança e de felicidade. A transformação na situação econômica e na composição social da comunidade cristã alterou a atitude psíquica dos crentes. O dogma evoluiu, a idéia do homem que se torna deus transformou-se na idéia do deus que se faz homem. O pai já não devia ser derrubado, e não são os governantes que tem a responsabilidade do sofrimento das massas. A agressão já não é dirigida às autoridades, mas à pessoa dos próprios sofredores. A satisfação está no perdão e amor, que o pai oferece a seus filhos submissos, e, simultaneamente, na posição paternal e regia que Jesus sofredor assume, permanecendo ao mesmo tempo o representante das massas sofredoras. Jesus torna-se finalmente Deus sem derrubar Deus, porque sempre foi Deus.
Atrás disso esta um regressão ainda mais profunda, que encontra expressão no dogma homoousiano: o Deus paternal, cujo perdão só pode ser obtido pelo sofrimento, se transforma na mãe cheia de graça, que alimenta o filho, abriga-o em seu ventre, e com isso proporciona o perdão. Descrita psicologicamente, a transformação que ocorre é a passagem de uma atitude hostil para com o pai para uma atitude passiva e masoquisticamente dócil, e, finalmente, para a da criança amada pela mãe. Se tal evolução ocorre no individuo, indica uma enfermidade psíquica. Ocorre, porém, num período de séculos, e não afeta a totalidade da estrutura psíquica dos indivíduos, mas apenas um segmento comum a todos. Não é a manifestação de perturbação patológica, mas sim a adaptação a uma determinada situação social. Para as massas que conservaram um resto de esperança na derrubada dos governantes, a fantasia cristã primitiva era adequada e satisfatória, como foi o dogma católico para as massas da idade media. A causa da evolução esta na transformação da situação sócio-econômica ou no retrocesso das forças econômicas e suas conseqüências sociais. Os ideólogos das classes dominantes fortaleceram e aceleraram essa evolução sugerindo satisfações simbólicas às massas, guiando sua agressão para canais socialmente inofensivos.
O catolicismo significou a volta disfarçada à religião da Grande Mãe, que havia sido derrotada por Jeová. Somente o protestantismo voltou-se para o deus pai. Coloca-se ele no inicio de uma época social que permite uma atitude ativa da parte das massas, em contrate com a atitude passivamente infantil da Idade Média
NEY GONÇALVES
quarta-feira, 8 de julho de 2009
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